Proteção solar para cães e gatos: atualizações e novas perspectivas

Por Dra. Débora Tieko Parlato Sakiyama , médica-veterinária parceira da Pet Society.

 

Assim como as pessoas, cães e gatos também precisam proteger a pele contra os efeitos nocivos dos raios solares para prevenir doenças como câncer de pele e também o envelhecimento precoce, pois uma pele desgastada e sensibilizada é mais predisposta ao desenvolvimento de patologias. O cuidado deve ser maior em dias de radiação solar intensa, com animais que permanecem durante muito tempo em locais abertos e com as raças de pele pouco pigmentada ou sensível e pelagem clara e escassa, como as raças caninas bull terrier, pit bull, boxer branco, bull dog inglês, dálmata, beagle, whippet e gatos brancos. Merecem maior atenção regiões do corpo com menos pelo, como borda da orelha, nariz, abdome, axilas, parte interna dos membros e bolsa escrotal. Além disso, deve-se evitar o sol naqueles períodos de maior intensidade do dia, entre 10 e 15 horas (1, 7, 8, 14, 15).

 

A exposição crônica à radiação ultravioleta pode causar lesões solares, principalmente em animais de pele clara e com pelagem rarefeita. A dermatite actínica, também conhecida como dermatite solar, é uma dermatose ambiental classificada como reação de queimadura decorrente da exposição excessiva aos raios solares.  Acredita-se que a lesão de fototoxicidade é pré-neoplásica e que a ceratose actínica crônica pode progredir para neoplasias como o carcinoma de células escamosas e, menos frequentemente, levar à ocorrência de hemangiossarcoma (8,14). Ceratose actínica e carcinoma de células escamosas são considerados estágios diferentes de uma mesma doença e diversos autores relatam que não há distinção clínica entre estas patologias. O carcinoma de células escamosas é uma neoplasia comum na clínica de pequenos animais, representando até 15% dos tumores cutâneos em cães e até 50% das neoplasias cutâneas malignas em felinos. Apesar de sua etiologia não estar completamente definida, reconhece-se que a lesão por exposição aos raios UV é um fator importante no desencadeamento da doença. (8,15). Evidências atualmente disponíveis indicam que o uso rotineiro de filtro solar proporciona benefícios de proteção ao longo prazo, prevenindo o desenvolvimento de carcinoma de células escamosas e lesões precursoras de neoplasias, como as ceratoses actínicas. (3,5,6).

A radiação ultravioleta (UV) é a principal responsável pelos danos ao tecido cutâneo. Seu espectro é tradicionalmente subdividido em: UVC (200-290 nm), UVB (290-320 nm) e UVA (320-400 nm). A radiação UVC também tem efeitos nocivos, mas por ser quase totalmente absorvida pela camada de ozônio, apenas uma pequena porção chega à superfície da terra. As radiações UVB, embora apresentem menor comprimento de onda e menor poder de penetração na pele, são as mais energéticas. Devido à sua alta energia, os raios UVB são responsáveis pelos danos agudos e crônicos à pele, tais como manchas, queimaduras (desde vermelhidão até bolhas), descamação e câncer de pele. As radiações UVA apresentam maior comprimento de onda e são menos energéticas, mas são capazes de penetrar mais profundamente na pele atingindo a derme, sendo responsáveis por originar radicais livres oxidativos, causando foto-envelhecimento cutâneo precoce, além de doenças por fotossensibilidade e desenvolvimento de câncer (1,2,5,6).

A aplicação regular de protetor solar de uso veterinário é indispensável na estratégia de proteção contra os efeitos cumulativos prejudiciais da exposição à radiação solar, como queimaduras, envelhecimento precoce e câncer de pele. Um filtro solar moderno e eficaz contra raios ultravioleta precisa oferecer proteção de amplo espectro, ou seja, conter filtros UVA e UVB, ser foto-estável, resistente à água, apresentar distribuição homogênea sobre a superfície cutânea e ser formulado com ingredientes seguros (3,13). Uma prática muito comum é o uso de filtro solar de uso humano em animais de companhia.  No entanto, é de suma importância alertar o proprietário sobre os perigos da aplicação de protetor solar de uso humano nos animais. Por apresentarem propriedades distintas da pele humana, a aplicação tópica desse tipo de produto em cães e gatos pode causar irritação, lesões cutâneas, reações alérgicas ou até mesmo distúrbios no trato digestivo se o animal lamber e ingerir o produto, principalmente nos casos de uso prolongado.

Os filtros de proteção solar são classificados em químicos ou orgânicos e físicos ou inorgânicos. Os filtros químicos ou orgânicos são formados por moléculas químicas orgânicas que absorvem um ou mais comprimentos de onda específicos, transformando-os em outro tipo de energia inofensiva ao organismo. A maioria dos filtros químicos absorve a energia UV em uma faixa de comprimentos de onda relativamente estreita ou específica e devido ao limitado espectro de absorção dos ativos, é necessária uma combinação de vários ativos protetores solares para oferecer proteção UVA e UVB, tornando desafiadora a formulação de filtros solares eficazes e foto-estáveis (6,13).

Atualmente existem diversas substâncias que atuam como filtros químicos e dentre elas, ainda são utilizadas algumas que despertam preocupações em relação à sua inocuidade ao organismo. Muitos estudos relatam que substâncias amplamente utilizadas em filtros solares de uso humano, como oxibenzona, palmitato de retinol e PABA (ácido para-aminobenzoico), apresentam alta capacidade de absorção pela pele e potencial para causar alergias, irritações cutâneas e até disfunções sistêmicas, inclusive com alarmante risco carcinogênico (1,2,3).

Filtros químicos podem ser considerados menos eficazes porque absorvem a radiação UV ao invés de refleti-la ou espalhá-la, o que propicia a foto-degradação e a geração de radicais livres. Além disso, outro importante fator limitante em relação aos protetores solares químicos é o potencial foto-irritante ou de reações de fotossensibilização em indivíduos suscetíveis (9,6,10).

Devido às questões e evidências que colocam em dúvida a segurança dos filtros químicos, os protetores solares indicados para pacientes alérgicos, com pele sensível, gestantes e crianças, frequentemente são formulados à base de filtros inorgânicos de proteção.

 

Os filtros solares físicos ou inorgânicos agem como uma barreira física que não permite a passagem da radiação solar e sua penetração na pele, pois suas partículas refletem e dispersam os raios solares.  Além de muito eficazes na proteção contra a radiação UV, apresentam risco nulo ou baixo de toxicidade e absorção pela pele, e elevada foto-estabilidade, o que significa que esses filtros são capazes de oferecer fotoproteção mesmo em situações de exposição prolongada ao sol. Tais propriedades explicam o aumento crescente desses tipos de filtro nas formulações de protetor solar ou cosméticos. As duas partículas mais usadas como filtro inorgânico e aprovadas tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos, Japão e Europa, são o dióxido de titânio (TiO2) e o óxido de zinco (ZnO). Na lista do FDA – USA (Food and Drug Administration) ambas as substâncias são aprovadas para proteção contra os raios UVB e UVA (1,2,3, 6,10,12).

O dióxido de titânio é um composto inorgânico presente na natureza como componente de muitos minerais. Devido ao seu alto índice de refração e sua grande capacidade de impedir a absorção da luz UV, principalmente do espectro UVB, é um componente encontrado em quase todos os protetores solares (1,5).

O óxido de zinco é um composto inorgânico mineral praticamente insolúvel em água, utilizado em pomadas, cremes e loções para proteger contra as queimaduras solares e outros danos à pele causados pela luz ultravioleta. Quando utilizado como ingrediente de protetor solar, o óxido de zinco assenta-se na superfície da pele bloqueando e dispersando os raios UVB e também UVA. Além de apresentar o mais amplo espectro refletor de radiação UV, o óxido de zinco é foto-estável, não irritante e hipoalergênico (1,5,9).

 

Figura 1.(A)   Penetração da radiação UV no estrato córneo. (B)   Aplicação de filtros físicos de alto índice refletor como TiO2 e ZnO, sobre o estrato córneo. Bloqueio por reflexão e dispersão de grande parte da radiação UV recebida.

Filtros físicos ou inorgânicos já são amplamente utilizados na área humana, principalmente em produtos hipoalergênicos. A combinação de TiO2 e ZnO na formulação garante proteção de amplo espectro, diminuindo a necessidade de componentes orgânicos (6,10).

Em busca de produtos cada vez mais seguros e eficazes para a proteção contra os efeitos deletérios da radiação solar, pesquisadores estudam espécies de plantas com potencial fotoprotetor e ação antioxidante para complementar a formulação dos filtros solares, tais como: Aloe vera spp. (Aloe, Babosa), Matricaria recutita (Camomila), Centella asiatica (Centelha Asiática), entre outras (4,11).

 

A denominada fotoproteção secundária envolve a utilização de agentes ativos para neutralizar os processos fotoquímicos inerentes que podem induzir danos ao DNA das células da epiderme. Antioxidantes comumente utilizados em protetores solares e produtos cosméticos são vitaminas C e E, polifenóis e também extratos de plantas. A aplicação tópica desses componentes visa combater radicais livres gerados pela radiação UV e complementar os efeitos protetores, incluindo redução de eritema, foto-envelhecimento, fotocarcinogênese e imunossupressão (4,6,10,13).

Na área humana, a quantificação da eficácia fotoprotetora de um filtro solar é mensurada pelo Fator de Proteção Solar (FPS). O método, definido pelo FDA, baseia-se na determinação da Dose Eritematosa Mínima (DEM), definida como sendo a menor quantidade de energia necessária para o surgimento de eritema, em áreas de pele protegidas e não protegidas pelo produto avaliado. O cálculo do FPS é o resultado da razão numérica entre a DEM da pele protegida pelo fotoprotetor em questão, aplicado na quantidade de 2 mg/cm2, e a DEM da pele não protegida. O FPS quantifica o nível de proteção que um determinado produto é capaz de oferecer contra a queimadura solar. Na prática, se um determinado protetor apresenta o valor de FPS 15, isso significa que é necessária uma exposição solar 15 vezes maior para produzir eritema, se comparada à situação em que este usuário não estaria usando aquele protetor (12, 13).

Apesar de ser o método mais aceito universalmente para avaliação da eficácia fotoprotetora dos filtros solares, existem controvérsias na literatura acerca da determinação do FPS e sobre sua aplicabilidade em condições reais de uso (12). A sua interpretação não deve ser baseada apenas no valor numérico, devendo-se também considerar a forma adequada de uso do produto, em termos de quantidade aplicada e regularidade na reaplicação, já que no método de quantificação do FPS o protetor solar é aplicado na concentração de 2 mg/cm2, quantidade geralmente superior à que as pessoas costumam aplicar rotineiramente. Outro ponto crucial a ser considerado é em relação ao marcador biológico relacionado ao efeito de proteção. O FPS refere-se exclusivamente à proteção quanto à produção de eritema, lesão causada principalmente pelos raios UVB. Por este raciocínio, não é possível determinar qual o percentual de proteção contra o desenvolvimento de neoplasias cutâneas ou qual o nível de proteção contra os efeitos da radiação UVA. Além disso, as variáveis envolvidas para padronizar espectro e fluxo de radiação UV da fonte emissora utilizada no método e a leitura da Dose Eritematosa Mínima, a qual depende de fatores muito relativos como a resposta individual de cada organismo para desenvolvimento de eritemas, também são aspectos que geram dúvidas e críticas acerca do método do FPS (13).

Portanto, um problema associado aos filtros solares atuais é que, em muitos casos, o único indicador de eficácia do produto é o FPS. Por ser uma medida incompleta, para escolher um bom protetor solar é importante levar em consideração outras características como dados relacionados à resistência à água, proteção de amplo espectro (UVA e UVB) e foto-estabilidade.

Apesar do uso de protetor solar para cães e gatos ainda ser um tema pouco abordado na área veterinária, é irrefutável a relevância dos efeitos deletérios da exposição crônica à radiação ultravioleta, principalmente num país tropical como o nosso e com o panorama atual que aponta para o aumento da expectativa de vida da população de cães e gatos, graças a fatores como o avanço de tecnologias na medicina veterinária e ao cuidado mais responsável por parte dos proprietários e tutores.

O carcinoma de células escamosas é uma doença frequente entre as neoplasias cutâneas e é, portanto, um diagnóstico diferencial importante para qualquer lesão em pele, especialmente lesão de difícil cicatrização em plano nasal, orelhas ou pálpebras de cães e gatos mais predispostos à fotossensibilização. O diagnóstico precoce é essencial para o sucesso do tratamento, principalmente se a patologia for detectada no estágio de lesões pré-neoplásicas, como ceratose actínica (7,8,14).

Para prevenção de lesões solares e degeneração precoce da pele de cães e gatos, deve-se evitar a exposição à radiação UV em excesso e proteger a pele, principalmente as regiões de pele clara e pelagem rarefeita, com protetor solar de amplo espectro e hipoalergênico, preferencialmente composto por filtros físicos, e com ativos que proporcionem ação antioxidante, hidratação profunda e aumento da elasticidade, contribuindo com a manutenção da integridade da barreira epidérmica e fortalecimento da imunidade cutânea (7,8,9,14,15).

 

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Referências Bibliográficas:

1.Araujo, T.S.; Souza, S.O. Protetores solares e os efeitos da radiação ultravioleta. Scientia Plena 4, 114807, 2008.

2.Balogh, T.S.; Velasco, M.V.R.; Pedriali, C.A.; Kaneko, T.M.; Baby, A.R. Proteção à radiação ultravioleta: recursos disponíveis na atualidade em fotoproteção. An Bras Dermatol, 86(4):732-42, 2011.

3.Burnett, M.E.; Wang, S.Q. Current sunscreen controversies: a critical review. Photodermatology, Photoimmunology & Photomedicine, v. 27, p.58–67, 2011.

4.Carvalho, J.C.S., Garcia, P.S.P.; Vignol, S.R.; Pedriali, C.A. Estudo do impacto da utilização de ativos vegetais em fotoprotetores. InterfacEHS – Saúde, Meio Ambiente e Sustentabilidade, v.10, n.2, 2015.

5.Flor, J.; Davolos, M.L.; Correa, M.C. Protetores solares. Quim. Nova, Vol. 30, No. 1, 153-158, 2007.

6.Morabito, K.; Shapley, N.C.; Steeley, K.G.; Tripathi, A. Review of sunscreen and the emergence of non-conventional absorbers and their applications in ultraviolet protection. International Journal of Cosmetic Science, 33, 385–390, 2011.

 

7.Murphy S. Cutaneous squamous cell carcinoma in the cat: Current understanding and treatment approaches.  J Feline Med Surg, 15:401-407, 2013.

 

8.Poggiani, S.D.S.C.; Hatayde, M.R.; Laufer-Amorim, R.; Werner, J. Expression of Cyclooxygenase-2 and Ki-67 in Actinic Keratosis and Cutaneous Squamous Cell Carcinoma in Dogs. Open Journal of Veterinary Medicine, 2, p.41-47, 2012.

 

9.Raguvaran, R.; Manuja, A.; Manuja, B.K. Zinc Oxide Nanoparticles: Opportunities and Challenges in Veterinary Sciences. Immunome Res, 11:095, 2015. doi:10.4172/1745-7580.1000095

10.Rai, R.; Shanmuga, S.C.; Srinivas, C.R. Update on photoprotection. Indian J Dermatol, 57:335-42, 2012.

11.Ramos, A.P.; Pimentel, L.C. Ação da Babosa no reparo tecidual e cicatrização. Brazilian Journal of Health v. 2, n. 1, p. 40-48 Janeiro/Abril 2011.

12.Schalka, S.; Reis, V.M.S. Fator de proteção solar: significado e controvérsias. An Bras Dermatol, 86(3):507-15, 2011.

13.Schroeder, P.; Krutmann, M.D. What is needed for a sunscreen to provide complete protection. Disponível em: http://www.skintherapyletter.com/2010/15.4/2.html Acesso em:06.01.2017.

14.Scott, D.W.; Miller, W.H.; Griffin, C.G. Dermatologia de Pequenos Animais, 5.ed. Rio de Janeiro: Interlivros, p. 790-802, 1996.

15.Vilar-Saavedra P, Kitchell BE. Sunlight-induced skin cancer in companion animals. In: Baldi A, Pasquali P, Spugnini EP, eds.  Skin Cancer, a Practical Approach. New York: Springer; 2014:499–514.

 

 

 

 

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